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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Matematização do Mundo

" Segura de si, a autoridade não necessita de, a cada instante, fazer o discurso sobre sua existência, sobre si mesma. Não precisa perguntar a ninguém, certa de sua legitimidade, se "sabe com quem está falando?". Segura de si, ela é porque tem autoridade, porque a exerce com indiscutível sabedoria "

FREIRE, Paulo (Pedagogia da Autonomia)

Para analisar as consequências da matematização nas relações sociais, na ciência e na construção do saber em instituições como a escola e a família, é preciso questionar o conceito de conceito, a função, origem e produção do método utilizado, a fabricação da verdade enquanto instrumento político de intervenção na vida dos cidadãos. O conceito é uma ferramenta de análise, classificação e delimitação de um fenômeno. A metodologia que o pesquisador utiliza não é neutra, tampouco escolhida acidentalmente.

Se falo algo, falo partindo de um pressuposto, tenho que constantemente exercer vigilância epistemológica para que as outras pessoas consigam compreender. Por isso é necessário levar em conta quem é "você", o que deseja, como se veste, o que lê, relações de gênero, como se posiciona politicamente entre outros aspectos que fundamentam um indivíduo.
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O método científico, é um poderoso meio para impor uma verdade sem que ela pareça uma opinião individual, mas um consenso da comunidade científica descoberto no cotidiano. Isso está impregnado no discurso pedagógico e, consequentemente, na política.

A racionalização que lidamos diariamente ao acordarmos para trabalhar, na hora do almoço, do jantar, quando temos que dormir, ou fazer algum tipo de planejamento, é tão implacável na disseminação das informações como num filme de Godard, onde a beleza estética, o rigor de cada frase é tamanha, que produz um charme irresistível ao espectador contemplativo.

A segurança que o cotidiano proporciona - com seus hábitos naturalizados nos mais variados campos - e a rotina mecânica, são tão fortes que nos amortece a vontade de pensar sobre os fenômenos que nos cercam. Como culpar os cidadãos por aceitarem tão passivamente a maior parte do que é dito pela mídia e governo? É uma injustiça e imoralidade no país que vivemos, sobre tais condições que somos submetidos, atacar aqueles que se afastam do pensamento crítico e subversivo.

A população atualmente exige o mínimo para viver com dignidade; trabalha e cumpre o seu papel democrático quando é feita a convocação. Delegamos poder a pessoas que "detêm a razão" para julgar assuntos que são do nosso interesse, mas que por questões de ordem e tempo permitimos que decidam por nós o que vai nos beneficiar, representar e satisfazer as demandas materiais e sociais.

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Outro fator relevante na discussão do saber racional é a produção de segregacionismo ideológico na sociedade moderna, tendo em vista que essa matriz racionalista que apresentarei a seguir faz parte de um império global.

Caso exista algum indivíduo que não tente pensar dentro da lógica matemática para organizar sua vida em passado, presente, futuro, cedo ou tarde, bom ou mau, certo ou errado, dia ou noite, triste ou feliz, louco ou normal, estaria fadado a não compreender o mundo de forma binária, em sistemas fechados e abertos. E, por conseguinte, a grande parte da população também não lhe compreenderia. Criamos um monstro tão grande e opressor que não vemos nada além dele.

Chegamos ao ponto de considerar que a razão é imanente ao ser humano. E não uma construção socio-político-cultural. A natureza humana feita em laboratório, difundida nas universidades e entregue diretamente em nossas casas através da televisão. Dessa forma, é coerente afirmar que somos iguais, independente de cor, religião, e nacionalidade. Qualquer semrazão que acidentalmente encontrássemos pela rua seria tratado como Gregor Samsa. O diferente fere a nossa segurança ontológica. É cruel constatar que somos os assassinos da diversidade porque naturalizamos uma verdade, um sistema, um método para apreender o mundo. Heidegger (1889-1976) dizia que a morte é a ausência de possibilidades.

Que tipo de civilização está sendo construída quando somos motivados (de maneira velada) a um conformismo político e filosófico? Infelizmente poucos têm acesso ao ócio necessário para refletir sobre sua própria existência. Entretanto, Max Stirner (1806- 1856) acreditava na possibilidade de “libertar o ser humano da servidão aos fantasmas criados por ele próprio, e às condições sociais”. O problema é que o fantasma, aqui entendido como convicção, está enraizado na cultura e na educação desde a infância.

A formação é descartada para dar lugar a uma pedagogia da informação, a construção do saber é deixada de lado sendo posteriormente substituída pela reprodução de velhas fórmulas para vivermos em harmonia com as instituições que nos darão recompensas por cada manifestação de bom comportamento: Salvação divina, ascensão social e financeira, portanto, sucesso e reconhecimento. A matematização do cotidiano é fundamental para o ser humano controlar o mundo que habita. Alheios a essa lógica de organização psico-socio-cultural perdemos nossa identidade. É como se não existíssemos.

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O positivismo elaborou um sistema ideológico que considerava os fatos verdadeiros em si mesmos. Dessa forma, os fatos informam o que são e o indivíduo está sujeito apenas a receber o conhecimento pronto, em outras palavras, é preciso apenas coletar informações puras que necessitam ser "descobertas". É interessante - neste caso - lembrar a máxima nietzschiana “Não existem fatos morais, apenas interpretações morais dos fatos”. Ocorre que o positivismo retira do homem a responsabilidade da produção do saber.

Hoje julgamos que até o instrumento de análise é parte integrante do conhecimento obtido em campo. Diferentes instrumentos e pesquisadores (com outras metodologias) produzem questionários diversos, o que aumenta a complexidade quali-quantitativa da pesquisa em Ciências Sociais.


Fonte: Resistencialismo

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Portugal explica as leis na língua do cidadão

O governo português quer colocar ordem na casa. Desde quarta-feira (13/10), as leis publicadas no diário oficial vêm acompanhadas com uma versão simplificada para o cidadão médio entender. No quesito faxina, Portugal também se mostra empenhado. No final de setembro, foi enviada para o Parlamento uma proposta para mandar para o lixo 443 atos legislativos que não têm mais eficácia, mas ainda não foram limados do ordenamento jurídico.
As duas medidas fazem parte do Simplegis, programa lançado pelo governo em maio com o objetivo de tornar as leis portuguesas mais claras e reduzir a quantidade de regras. A promessa inicial era a de que ao menos 300 leis já sem eficácia seriam revogadas neste ano. O plano acabou mais ousado. Em proposta que aguarda votação do Legislativo português, o governo aumenta esse número para 443.
De acordo a proposta do Simplegis, o país deve assumir o compromisso de revogar mais leis do que a quantidade de novas normas criadas por ano. Com isso, pretende reduzir as regras do jogo e tornar a compreensão e cumprimento de todas mais simples. A intenção é boa: ganha a empresa e o cidadão, que gastam menos para entender e cumprir uma lei; ganha o país, que fica mais bem organizado e previsível.
Outro plano do governo português é o chamado atraso zero. Até o final de 2011, Portugal quer colocar em dia a transposição das diretivas aprovadas pela União Europeia e não mais atrasar nisso. A transposição das diretivas europeias hoje é um problema nos países membros da UE. Uma vez que o Parlamento europeu aprova determinada norma, cada Estado precisa absorver a nova regra para o seu ordenamento jurídico. Mais ou menos como os países fazem quando se trata de tratados internacionais, que precisam se ratificados. No caso da União Europeia, o atraso para essa transposição compromete a eficácia do chamado Direito comunitário e ainda pesa nos cofres públicos de cada nação, quando a demora é questiona na Justiça europeia.

ABC da lei

A outra ponta do Simplegis é facilitar a compreensão do texto da lei. A proposta é fazer com que o cidadão comum, sozinho, consiga entender qual a regra do jogo que vai jogar. O governo português quer criar até final de 2011 dez manuais de instrução para explicar de forma simples 10 leis do país.
E, se a legislação não sai do forno já clara o bastante para o português médio entender, o governo lançou essa semana uma saída, que atende pelo nome de Resumo em Português Claro. Na quarta-feira (13/10), quem abriu o Diário da República de Portugal viu a surpresa, que deve agora virar rotina na publicação oficial.
Funciona assim. Depois da publicação do texto da lei da maneira como foi aprovado, um resumo deixa todo o juridiquês de lado e explica em bom português o que a norma quer dizer. Em poucas linhas, em tópicos, bem simples mesmo para que todos entendam.
A iniciativa, bastante aplaudida por associações de consumidores, já esbarrou num ponto: a Ordem dos Advogados. De acordo com notícias da imprensa portuguesa, o presidente da Ordem de Portugal, António Marinho e Pinto, não gostou de o governo brincar de professor. Em entrevista, reclamou que o tal resumo é um intromissão das funções do Judiciário. É a Justiça, disse Pinto, quem interpreta as leis.

Fonte:  Conjur